Reduza o riscos da Nomofobia com detox digital

Entre conversar com os amigos, assistir vídeos e criar conteúdos diversos, as redes sociais já fazem parte do nosso cotidiano e é até difícil não entrar automaticamente nos aplicativos logo ao acordar e em cada momento livre do dia. Entretanto, aliado ao entretenimento, as redes sociais também são uma fonte de estresse, ansiedade, comparações e até de esgotamento dependendo do quanto você a utiliza. Quando falamos de pessoas públicas, por exemplo, a situação é ainda mais crítica, já que elas estão expostas a críticas e julgamentos dos espectadores. Na última semana, a criadora de conteúdo de 15 anos Liz Macedo se afastou de suas redes sociais após a polêmica da briga com outras influenciadoras.

A jovem retornou às redes nesta quarta-feira (14) após uma semana sem postar nada e, segundo ela, este tempo foi crucial para ela “rever algumas coisas que estavam acontecendo na minha vida”. “Acho que pra muitas situações, o tempo é o melhor conselheiro, porque é aquele momento que a gente senta, pensa não só sobre uma situação, mas sim sobre toda a nossa jornada, a gente olha por outras outras perspectivas”, afirma Liz.

Mesmo se você não se envolver em uma polêmica ou sofrer uma onda de ódio, você ainda pode sofrer com diversos malefícios proporcionados pelo uso constante do celular, como baixa autoestima e dificuldade concentração.

Nada é tão eficiente quanto desligar o telefone e viver a vida real, como a criadora de conteúdo jovem fez na última semana.

Quanto mais tempo dentro das redes sociais, mais elas parecem tomar conta da vida e da realidade, mas não é bem assim! Fora delas, existe um mundo real a ser vivido, com pessoas para conhecer, interagir com família e natureza.

Neste período nada de academia com headphone! Evite o primeiro plim!

OS RISCOS DA DEPENDÊNCIA:
SINTOMAS BRAIN ROT

1. COMO A INTERNET AFETA O FUNCIONAMENTO DO CÉREBRO?

Por meio de imagens impactantes e sons estimulantes, as redes sociais são uma grande armadilha para o sistema de recompensa cerebral. Não à toa, as pessoas podem passar horas navegando por essas plataformas, situação que desencadeia no cérebro a liberação de dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer.

Essas “gratificações” imediatas reconfiguram a nossa rede neural, de modo que ela se torna menos tolerante a processos que demandam mais tempo e esforço. Dessa forma, mais do que dependente da internet, o indivíduo ainda pode ficar isolado, apático, incapaz de raciocinar criticamente ou mesmo tomar decisões por si próprio.

2. COMO IDENTIFICAR OS SINAIS DE BRAIN ROT?

A velocidade acelerada que os aplicativos promovem no mundo digital gera nas pessoas mais inquietude, impaciência e irritabilidade. Com isso, elas deixam de tolerar os momentos de tédio e têm dificuldade para lidar com frustrações.

Além disso, considerando que informações alarmistas e conteúdos de conflito prendem mais a atenção, um possível reflexo é o aumento do estado de alerta. Isso, consequentemente, gera estresse e ansiedade.

A arbitrariedade do que é publicado nas redes sociais, em que a maioria dos indivíduos compartilha apenas aquilo que é “positivo”, como conquistas pessoais e profissionais, viagens etc., pode levar à sensação de inadequação. E a comparação com essas vidas “perfeitas” pode desencadear um estado de baixa autoestima e depressão.

Por fim, outros sinais de alerta para o brain rot incluem a redução de atividades prazerosas no mundo offline, a baixa capacidade de socialização, a dificuldade de sono e a indisposição ao acordar. Se esse for o seu caso, o mais recomendado é buscar ajuda profissional de um psicólogo e de um psiquiatra.

3. COMO EVITAR O BRAIN ROT?

Adotar alguns hábitos saudáveis pode ajudar a evitar o problema, bem como seus prejuízos associados:

– Estabeleça limites de tempo de exposição às telas;
– Desative as notificações do seu celular;
– Faça suas refeições sem celular na mesa;
– Deixe os aparelhos eletrônicos de lado próximo do horário de dormir;
– Programe atividades fora das telas, especialmente as que exijam trabalho mental, como ler um livro ou montar quebra-cabeça.

Revisão técnica: Erica Maria Zeni (CRM 140.238/ RQE 75645 e 756451), clínica geral e médica paliativista do corpo clínico Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. Possui graduação e residência Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e residência Medicina Interna pela Universidade de São Paulo (USP). Pós graduação em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium Latinoamérica Medicina Paliativa, Buenos Aires, Argentina.

NOMOFOBIA: A DOENÇA INSTALADA

O uso excessivo do aparelho celular pode levar a impactos negativos, tanto para a saúde física quanto mental. Esse comportamento está associado a um transtorno chamado nomofobia. Derivada da expressão “no mobile phobia” (fobia de ficar sem celular, na tradução para o português), a nomofobia se refere à angústia causada pela falta do smartphones ou impossibilidade de utilizá-lo por falta de bateria ou internet, por exemplo. O conceito surgiu em 2008 em um estudo feito pelo UK Post Office (os Correios do Reino Unido), que investigou a ansiedade gerada pela ausência do dispositivo.

POR QUE A NOMOFOBIA ACONTECE?

A nomofobia tem origem em diversos fatores, tanto psicológicos como sociais, segundo a médica Julia Khoury, psiquiatra pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre e doutora em psiquiatria pela mesma instituição. Um dos principais motivos é a forma como os smartphones são projetados para estimular o sistema de recompensa do cérebro.

As notificações, as redes sociais e os aplicativos de mensagens ativam a liberação de dopamina, criando um ciclo de prazer e reforço semelhante ao observado em outras dependências, explica a especialista. “As recompensas no celular são muito rápidas, muito imediatas. Você postou, já recebe uma curtida. Isso faz com que o cérebro fique ávido por dopamina, que é o hormônio do prazer.” Com isso, atividades que antes geravam satisfação passam a parecer menos estimulantes, já que o celular proporciona uma liberação de dopamina muito maior.

Além disso, a conectividade constante criou uma cultura em que estar sem o celular pode significar perder informações importantes, compromissos ou interações sociais, segundo a dra. Julia. Muitas pessoas sentem a necessidade de estar sempre disponíveis, seja para o trabalho ou para a vida pessoal, o que intensifica a ansiedade quando não conseguem acessar o aparelho.

Um fator relevante é a relação entre o uso excessivo do celular e transtornos como ansiedade e depressão. A dependência de smartphones está frequentemente associada a outros transtornos psiquiátricos, de acordo com a médica.

“É muito raro ter apenas a dependência do smartphone. Normalmente, a pessoa tem ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno de controle de impulso ou transtorno bipolar”, explica a psiquiatra, que diz também que a relação é bidirecional, ou seja, essas condições aumentam a probabilidade da dependência digital, e o uso excessivo do celular pode agravar esses transtornos.

PRINCIPAIS SINTOMAS DA NOMOFOBIA

Há diversos sintomas que caracterizam a nomofobia. Entre os principais sinais, estão:

– Hábito de olhar continuamente para a tela do celular;
– Falsa percepção de toques ou vibrações no dispositivo;
– Necessidade crescente de tempo de uso para sentir o mesmo prazer;
– Tremores, falta de ar e excesso de suor causados pela ausência do celular;
– Dificuldade de concentração;
– Uso do dispositivo em situações perigosas, como ao dirigir ou ao atravessar a rua;
– Irritabilidade porque esqueceu o celular em casa;
– Gasto de horas rolando o feed das redes sociais.

IMPACTOS DA NOMOFOBIA EM CRIANÇAS E ADULTOS

Os efeitos do uso excessivo são mais graves em crianças, pois o cérebro ainda está em desenvolvimento. Segundo a dra. Julia, isso pode prejudicar o desenvolvimento de habilidades como empatia, que é a capacidade de identificar e entender emoções e intenções de outras pessoas. “Isso pode comprometer os relacionamentos interpessoais ao longo da vida.”

O uso intenso também pode levar à dificuldade de adiar recompensas, tornando a criança mais impulsiva. Problemas no sono são comuns, pois a luz azul do celular interfere na produção de melatonina, o hormônio do sono. “Crianças que são viciadas no celular também são mais facilmente irritáveis e impacientes”, afirma a psiquiatra.

Kátia Ethiénne Esteves dos Santos, professora da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), diz que o uso excessivo de celulares pode prejudicar a concentração e a atenção dos estudantes, impactando negativamente o desempenho acadêmico, conforme mostram alguns estudos. “Além disso, pode levar ao isolamento social, uma vez que os estudantes podem preferir interações virtuais em vez de presenciais.”Nos adultos, os impactos da nomofobia são semelhantes, mas geralmente menos intensos. O vício em smartphone também gera dificuldades nos relacionamentos, redução do rendimento no trabalho e alterações na postura corporal devido ao uso prolongado do celular.

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO DA NOMOFOBIA?

O diagnóstico é realizado por meio da anamnese, uma entrevista médica detalhada. Em casos de adolescentes, os familiares também costumam ser envolvidos. “São realizados testes e aplicados questionários para identificar se a pessoa apresenta dependência de smartphone”, explica a dra. Julia. Os profissionais de saúde também tentam identificar comorbidades, outras doenças que geralmente acompanham a dependência de smartphones. O tratamento eficaz deve considerar esses fatores, segundo a especialista, para garantir uma abordagem mais completa para a recuperação do paciente.

TRATAMENTOS DA NOMOFOBIA

O tratamento envolve acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. As abordagens incluem terapia cognitivo-comportamental para modificar padrões de uso do celular, identificação de gatilhos e tratamento de comorbidades. Em alguns casos, pode haver necessidade de medicação para tratar transtornos subjacentes. “A terapia com psicólogos é essencial, pois esses profissionais são capacitados para ajudar no tratamento da dependência de celular. Em casos mais graves, medicamentos prescritos por psiquiatras podem ser utilizados para reduzir a impulsividade e o prazer excessivo associado ao uso do aparelho. Além disso, é fundamental tratar as comorbidades, como ansiedade e depressão, que frequentemente acompanham a dependência”, explica a dra. Julia.

Durante o tratamento, uma estratégia eficaz é estabelecer limites diários para o uso do celular. Existem aplicativos que permitem controlar o tempo de tela, bloqueando o acesso após um período determinado. “É um mecanismo de controle externo que ajuda a criar novos hábitos”, comenta a psiquiatra. Além disso, algumas pessoas optam por deixar a tela do celular em preto e branco, o que reduz o apelo visual e diminui a compulsão por ficar checando o aparelho constantemente.

A criação de “zonas livres de tecnologia” em casa também é recomendada. Por exemplo, a mesa de jantar pode ser um espaço em que o celular não é permitido, incentivando a interação entre os membros da família. “Os pais (no caso das crianças com dependência digital) precisam dar o exemplo, reduzindo o uso do celular perto dos filhos e promovendo mais interação”, recomenda a médica.

PROIBIÇÃO DE CELULAR NAS ESCOLAS

Diante dos impactos negativos do uso excessivo de celulares na aprendizagem e na saúde mental e física de crianças e adolescentes, foi sancionada neste ano, no Brasil, a Lei nº 15.100/2025. A legislação estabelece restrições ao uso de aparelhos celulares nas escolas públicas e privadas da educação básica, com o objetivo de criar um ambiente mais propício ao aprendizado e ao desenvolvimento saudável dos estudantes.

A professora Kátia diz que a proibição total pode melhorar a concentração e reduzir distrações. No entanto, cita que a tecnologia faz parte da vida das crianças e jovens, e é essencial integrar o uso dos celulares de forma equilibrada e pedagógica nas instituições de ensino, buscando novos caminhos para a educação digital.

“Adotar regras de uso moderado e educativo é mais eficiente a longo prazo. Integrar o uso de celulares de forma pedagógica, com orientação adequada, pode ajudar os estudantes a desenvolverem habilidades digitais importantes enquanto minimizam os impactos negativos do uso em excesso. A chave é encontrar um equilíbrio que permita o uso responsável das tecnologias, promovendo a inclusão digital e o desenvolvimento de habilidades críticas e criativas.”

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