Quero compartilhar com vocês um filme que assisti recentemente, Parque Lezama e fiquei pensando em como ele traz reflexões muito interessantes para quem está olhando a vida através da lente do legado, da sucessão e das relações entre gerações.
É um filme simples na forma, o que adoro, mas profundo nos temas simples da vida, principalmente olhando a passagem do tempo e aquilo que construímos ao longo da vida.
Grande parte da história acontece em um banco de parque em Parque Lezama, em Buenos Aires, onde dois homens já na maturidade da vida conversam sobre política, história, identidade e o tempo.
Mas por trás dessa simplicidade existe uma profundidade que toca diretamente temas que aparecem com frequência nas famílias empresárias.
Uma das frases que mais me chamou atenção no filme diz:
“O tempo não é o meu vilão.”
Essa frase parece simples, mas ela carrega uma provocação importante para quem está construindo ou planejando processos de sucessão, ou para quem teme envelhecer.
Em muitas famílias, o tempo é visto como uma ameaça e, para alguns, quase como um terror.
A ameaça da passagem de poder, da mudança de papéis, da necessidade de reorganizar histórias que durante décadas estiveram concentradas na figura do fundador, muitas vezes sem que ele próprio tenha tido espaço para refletir sobre a própria vida.
Muitos conduzem sua vida e legado no automatismo. Como se diz no filme: ver estando morto é uma opção de muitos.
Mas o filme sugere algo diferente.
O tempo não destrói os legados.
O que fragiliza os legados é a dificuldade de conversar sobre o tempo, sobre a vida, sobre as escolhas e a possibilidade de mudar.
Há uma cena particularmente interessante entre um dos personagens e sua filha, Clara.
Nesse diálogo aparece algo muito presente em famílias empresárias: o momento em que o fundador percebe que o filho ou a filha não se tornou exatamente a pessoa que ele imaginou.
O nome “Clara” aparece quase como um símbolo e peso de expectativas.
Ele fala do significado do nome, da expectativa que carregava quando o escolheu, da visão de mundo que gostaria que ela representasse.
Mas a vida dela seguiu outro caminho.
Essa cena revela algo muito importante para qualquer processo de sucessão:
Os herdeiros não são extensões biográficas dos fundadores, nem tampouco sua obra de arte.
Cada geração nasce em um tempo diferente, enfrenta desafios diferentes e inevitavelmente constrói uma forma própria de habitar o legado recebido e viver a vida que lhe pertence, independente dos pais.
Mas o filme também traz uma outra reflexão que considero extremamente importante. Ele mostra que o sucedido também não é um personagem inabalável, é humano com falhas, emoções e às vezes carregando mais culpa do que tempo para repará-las.
Ao longo da história, o personagem conta diversas histórias sobre si mesmo, algumas verdadeiras, outras claramente romantizadas. Ele tenta sustentar uma identidade que preserve sua relevância, sua grandeza, sua importância.
Isso revela algo profundamente humano, quando ele não se permite viver sua vida com inteireza talvez na maturidade do tempo fique lamentando o que deixou de fazer.
Fundadores constroem empresas, mas também constroem narrativas sobre si mesmos.
E, muitas vezes, quando o tempo avança, essa narrativa se torna uma forma de preservar dignidade, identidade e sentido.

Fundadora da Mardô Psicóloga Neurociência Aplicada Sucessão Familiar Governança Emocional, Familiar e Empresarial Legado e Herdeiros 0 anos preparando famílias empresárias a serem guardiãs do próprio legado
Talvez uma das maiores maturidades em processos de sucessão seja reconhecer dois fatos ao mesmo tempo:
Os sucessores não são extensões do fundador.
E os fundadores também não são figuras perfeitas.
Eles são seres humanos que tiveram coragem de iniciar algo e que, como todos nós, carregam também contradições, frustrações e imperfeições.
Quando conseguimos olhar para o legado com essa maturidade, algo interessante acontece.
A sucessão deixa de ser uma comparação entre gerações, um peso ou uma coleção de frustrações.
Ela passa a ser uma continuidade construída por pessoas diferentes, em tempos diferentes, conectadas por uma mesma história.
Talvez por isso esse filme seja tão interessante para quem está vivendo ou começando a pensar em processos de continuidade.
Preparar a sucessão seja como fundador, como G2, G3 ou como conselheiro que acompanha essas transições.
Porque ele nos lembra de algo essencial:
O tempo não é o vilão.
O verdadeiro desafio é transformar o tempo em diálogo e em escolhas que façam sentido para a vida que se deseja viver.




