Alerta: a Internet cada vez menos confiável…
Imaginando como será a publicidade na corrida presidencial do próximo ano, confesso uma preocupação crescente com a novidade do Sora 2. O recurso não está apenas na maior capacidade de criar, em minutos, um vídeo realista a partir de orientações textuais. Está também em dois outros fatores. Primeiro, o aplicativo não é só um mero executor de tarefas, como o ChatGPT, mas também uma pequena rede social – um clone do TikTok, com a diferença de que todos os vídeos disponíveis ali, sempre curtos e em ritmo acelerado, foram feitos por IA. A plataforma funciona como um feed personalizado, onde é possível passar horas assistindo às produções de outros usuários, além de postar suas próprias criações.
A segunda novidade é que agora o usuário pode escanear seu rosto e sua voz para produzir vídeos protagonizados por si mesmo. Esses avatares são o que a OpenAI vem chamando de cameos. Ao criar o seu, a pessoa pode optar por deixá-lo no modo privado, mas também pode compartilhá-lo com conhecidos e, se quiser, com todo mundo.
É uma aposta no potencial social dessa tecnologia, já que grupos de amigos podem brincar entre si, produzindo vídeos com os cameos uns dos outros. Tudo isso num ambiente em que a facilidade é a regra. Gerar um vídeo, com ou sem cameo, é gratuito e rápido: basta descrever uma ideia com o nível de especificidade desejado, e, dois ou três minutos depois, receber o resultado.
Na versão gratuita do aplicativo, os vídeos encomendados pelo usuário têm duração de até 15 segundos. Já os assinantes Pro da OpenAI, que pagam mensalidade de duzentos dólares (pouco mais de mil reais), podem criar vídeos de até 25 segundos. É uma rede sob medida para uma geração que não quer expor a própria vida nas redes sociais, mas deseja seguir interagindo. Tamanha facilidade requer uma estrutura colossal de processadores, que consomem energia elétrica e água em proporções muito superiores às do ChatGPT, que já não são pequenas em comparação a outros serviços.
A OpenAI tem feito investimentos para tentar resolver esse gargalo. Em outubro, firmou acordo com a Broadcom, empresa de semicondutores que irá produzir os primeiros chips desenvolvidos pela própria OpenAI, turbinando sua capacidade de processamento. O projeto vai exigir 10 gigawatts de energia por hora, o suficiente para abastecer 8 milhões de domicílios americanos. Um outro acordo semelhante para viabilizar seus serviços via data centers, também na casa dos 10 gigawatts, já havia sido firmado com a gigante da computação Nvidia em setembro. Esse consumo, no entanto, não tem sido acompanhado de iniciativas para a geração de energia na mesma escala. Por isso, a OpenAI tem procurado outros países que aceitem sediar a parte “suja” da operação – isto é, seus data centers. Um dos locais mais cotados é a Argentina do presidente Javier Milei, onde recentemente foram anunciados planos para a construção dessas estruturas na Patagônia (a aposta é de que, ali, as baixas temperaturas ajudariam no resfriamento das máquinas). A empreitada tem sido criticada pelo desperdício de energia, mas por ora não há qualquer obstáculo travando o caminho das IAs. O governo americano estima que, até 2028, os data centers espalhados por seu território já serão responsáveis por consumir até 12% da energia elétrica do país.
“É bem assustador”, diz Pollyana Ferrari, ao comparar a capacidade das novas IAs audiovisuais com a das que conhecíamos até poucos meses atrás. Ela é professora de pós-graduação em tecnologias da inteligência e design digital da PUCSP e integrante da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), projeto que reúne universidades, agências de checagem, projetos sociais e outras entidades na luta contra as fake news. “Os detalhes, como mãos e orelhas, os cenários, os movimentos e as falas, tudo está realista num ponto em que nossos olhos podem não conseguir distinguir. Me preocupa o fato de que mesmo ferramentas de checagem já possam ser ineficazes.”
Exemplo:
FastCompany 29-10-2025 | INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL Canal fake criado com o Sora 2 atraiu mais de 20 mil visualizações e interações no YouTube
THE WASHINGTON POST – 10-11-2025 De oito redes sociais, só uma avisa que vídeo gerado por IA é falso



