Ele foi batizado em homenagem a um padre católico, Ildefonso Xavier Ferreira, o que indica vínculos familiares com o catolicismo tradicional da época. Também esteve ligado à maçonaria, seguindo a tradição de seu pai, que foi fundador da primeira loja maçônica do Paraná. Após sua morte, sua memória foi homenageada por instituições espíritas, como o Centro Espírita que leva seu nome em Curitiba, mas isso reflete reconhecimento póstumo, não uma adesão pessoal ao espiritismo. Ou seja, em vida ele se vinculava mais à tradição católica e à maçonaria, enquanto o espiritismo o reverencia hoje como símbolo de valores como caridade e integridade.

Ildefonso Pereira Correia, nobre cavalheiro, nasceu de família aristocrata parnanguara, filho do Comendador da Ordem de Cristo, nobre do Império, Manoel Francisco Corrêa Junior e de dona Francisca Antônia Pereira Corrêa, nos idos de 6 de agosto de 1845. Nesta cidade de seu nascimento, viveu a infância e fez os primeiros estudos.
Seu pai, o Comendador Corrêa Junior, como era conhecido, grande líder político da região, caiu em desgraça por ter defendido a autonomia da 5ª Comarca de São Paulo (Paraná), e veio a falecer em 1857, passando Ildefonso à responsabilidade dos irmãos mais velhos, que o enviaram ao Colégio Fraze em Nova Friburgo, na Província do Rio de Janeiro, para concluir sua educação. Já concluído o Curso de Humanidades e Finanças, em 1869, Ildefonso retorna a Paranaguá. Prospera à frente dos negócios. E, para homenagear sua competência, a família o premia com estágio em Montevidéu e Buenos Aires, os grandes centros consumidores de seus produtos.
Desde a infância cultuava romance com a prima Maria José Corrêa, que ele carinhosamente chamava de Nhá coca, irmã do seu companheiro de infância Leocádio José Corrêa. Assim, em 24 de dezembro de 1872, engalana- se a Igreja Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá para a cerimônia nupcial. Constituída a família, Ildefonso e Maria José fixaram residência em Antonina, cidade considerada mais estratégica para os negócios da família.
Muito diligente e devotado aos negócios, o casal cresceu em prosperidade de tal forma que a mudança para a Capital se impunha. Assim, pois, vieram instalar-se em Curitiba, onde sonhavam edificar belíssimo palacete, construído na Rua do Serrito.
Ildefonso tornou-se o homem mais importante. Foi eleito presidente da Província, deputado provincial, vereador e industrial. Fundou o Clube Curitibano, para reunir a aristocracia curitibana; a Associação Comercial de Curitiba, para congregar o comércio curitibano. Era, de fato, a figura de maior expressão. Hospedou, por duas ocasiões, a família imperial, desde o imperador à princesa Izabel. Seu título de barão foi outorgado em 8 de agosto de 1888 pelos serviços prestados à Província do Paraná e á família imperial. Era a glória. Mas, do âmago das trevas, o destino já tramara sua teia maligna. Parece que todas as forças trevosas aliaram-se na missão nefasta de destruir essa vida tão edificante.
Irrompera nas plagas do sul, trazida pelos ventos pampeanos, a famigerada revolução federalista. À frente de um exército de homens brutais, Gumercindo Saraiva e uma tropa de celerados invadiram o território paranaense rumo ao Rio de Janeiro, onde pretendiam depor o presidente Marechal Floriano Peixoto.
Por onde essa corja passava tudo era destruído, assassinatos e degolamentos se multiplicavam sem fim. Quando o exército de sombras chegou a Curitiba o governador substituto, Vicente Machado, transferira a sede do governo para Castro, levando consigo toda a guarnição militar, deixando a cidade entregue à própria sorte, à mercê dos invasores. O pânico tomou conta da cidade, a ameaça de saque, incêndio, estupro e assassinatos inquietava a todos. Porém, o que alentava a todos era que o homem mais importante da província não fugira, não deixara a cidade, não poderia abandonar seu povo, sua família, seus amigos, seus interesses. Ildefonso permanecera, sem saber que tinha no seu título o seu maior inimigo.
Não havia mais governo, a Capital estava desprotegida. Na iminência da invasão formou-se uma junta governativa do comércio, sob a liderança ostensiva de Ildefonso, habilitada a conter os possíveis excessos de uma cidade despoliciada e aturdida. Em reunião fatídica, Gumercindo Saraiva e Custódio de Melo incumbem-lhe dramática missão e a Junta presidida por Ildefonso pessoalmente deve arrecadar um fundo em favor da revolução ou então… seria o caos!!! Esta seria a sua sentença de morte. Curitiba e seu povo estavam a salvo.
Em 1894 as tropas federalistas retomam Curitiba, colocam Vicente Machado no governo e o general Ewerton Quadros impõe a Lei Marcial. Os revolucionários e colaboradores foram todos presos e justiçados, entre eles Ildefonso Corrêa, o inditoso Barão do Serro Azul. Apesar de ter salvo Curitiba do saque e da destruição, não foi reconhecido. Ouvira dizer que o general Ewerton era espírita, portanto, um homem de bem, que saberia reconhecer sua condição. Mas as tramas da malignidade envolveram Ildefonso e alguns de seus amigos e partidários, julgados como chefes revolucionários e traidores da República, todos sem processo, à revelia das autoridades.
A morte de Ildefonso está envolta em grande mistério. Quem tinha interesse na sua morte? Quem pretendia assenhorear-se de sua fortuna? Este segredo nunca foi revelado. O fato é que após sua morte, sua fortuna desapareceu.
Na calada da noite de 20 de dezembro de 1894, Ildefonso Corrêa, seu primo, Presciliano da Silva Correia, Balbino Carneiro de Mendonça, José Lourenço Schleder, José Joaquim Ferreira de Moura, Loureno Rodrigo de Matos Guedes, são conduzidos por comboio ferroviário clandestino, comandado pelos famigerados Freire e Lepage, até às fímbrias da Serra do Mar, à altura do km 63 ali são todos fuzilados covardemente, da forma mais vil, pelas trevosas forças humanas fardadas, desprezando os pedidos de clemência que lhes suplicavam as frágeis vítimas. Depois seus corpos foram atirados no penhasco que serpenteava a montanha fatídica, acobertando o manto da noite, a cruel ignomínia contra aquelas almas piedosas.
Ildefonso pagou com a morte a sua integridade de caráter, a sua generosidade, simplicidade e humildade, por acreditar no valor mais alto de sua vida: a amizade dos seus semelhantes.
Há em Curitiba um Centro Espírita com seu nome, perpetuando-lhe a memória benfazeja.
CONHEÇA 5 CURIOSIDADES INCRÍVEIS SOBRE ILDEFONSO PEREIRA CORREIA, O BARÃO DO SERRO AZUL
Ildefonso Pereira Correia, conhecido como o Barão do Serro Azul, é uma figura proeminente da história do Paraná, cujo nome figura no “Livro de Aço dos Heróis Nacionais” ao lado de notáveis como Barão do Rio Branco, Dom Pedro I, Heitor Villa-Lobos e Joaquim Nabuco. Primeiro presidente do Clube Curitibano, o Barão desempenhou um papel fundamental na política do Paraná e alcançou sucesso como empresário, sendo reconhecido como o maior exportador de erva mate do mundo. Sua trajetória o torna uma personalidade única na história de Curitiba.
Vamos agora explorar cinco curiosidades sobre o Barão do Serro Azul, que hoje dá nome a uma das sedes do Clube Curitibano.

1- LIVRO DE AÇO DOS HERÓIS
O “Livro de Aço dos Heróis Nacionais”, criado em 1992, é uma reunião de personalidades que dedicaram suas vidas à liberdade e à democracia no país. Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, é um dos homenageados, reconhecido por sua contribuição na manutenção da República e na resistência contra a invasão de Curitiba durante a Revolução Federalista. Sua inclusão nesse livro é um tributo à sua importância histórica.
2- MAIOR EXPORTADOR DE ERVA MATE DO MUNDO
O Barão do Serro Azul desempenhou um papel crucial no chamado “ciclo de ouro” de Curitiba, quando a produção de erva mate enriqueceu a região e impulsionou o progresso da capital. E o produto foi responsável por uma parte significativa da economia paranaense, representando até 85% da produção de erva mate nacional. Seu empreendedorismo na indústria da erva mate contribuiu significativamente para o crescimento do Paraná.
3- PARTICIPAÇÃO NA REVOLUÇÃO FEDERALISTA
O Barão do Serro Azul teve um papel ativo durante a Revolução Federalista, quando os maragatos iniciaram uma revolta no Rio Grande do Sul em 1893. Nesse contexto, ele desempenhou um papel fundamental na tentativa de negociação com o líder dos maragatos, Gumercindo Saraiva, buscando a paz na região. No entanto, sua tentativa de negociação foi vista como traição pelos florianistas, levando à sua morte durante uma emboscada.
4- A BARONESA DO SERRO AZUL
Maria José Correia, a Baronesa do Serro Azul, era esposa de Ildefonso Pereira Correia. Pouco se sabe sobre sua juventude, mas o casamento entre primos era comum na elite parnanguara da época. O casal teve vários filhos, incluindo Iphygênia, Maria Clara Correia e Ildefonso Correia do Serro Azul. Infelizmente, alguns de seus filhos não sobreviveram aos primeiros meses de vida. O casamento e a família desempenharam um papel importante na vida do Barão do Serro Azul.
5- PRIMEIRO PRESIDENTE DO CLUBE CURITIBANO
O Barão do Serro Azul desempenhou um papel crucial na criação do Clube Curitibano em setembro de 1881. Como presidente do clube, ele ajudou a estabelecer um espaço para integração social e cultural em Curitiba. Além disso, o Barão teve uma carreira política destacada, atuando como camarista, presidente da Câmara de Curitiba, deputado provincial e vice-presidente da então Província do Paraná. Seu legado vai além de sua atuação empresarial, abrangendo contribuições significativas para a sociedade curitibana. A vida e as realizações do Barão do Serro Azul são testemunhos da importância desse personagem na história do Paraná e do Brasil. Suas múltiplas facetas, de empresário a político e líder social, o tornam uma figura notável e digna de reconhecimento.
Por Rubens Corrêa




