O fim das bets e a revisão de benefícios fiscais defendidos por Renan Santos podem alterar o destino de bilhões de reais na economia. As medidas atingem desde o orçamento das famílias e a arrecadação federal até investimentos empresariais e a Zona Franca de Manaus.
Renan Antônio Ferreira dos Santos é um ativista, empresário, músico e político brasileiro, fundador do Movimento Brasil Livre e atual presidente do Partido Missão, sendo candidato à Presidência da República em 2026. Renan Santos defende mudanças na política econômica, incluindo o fim das bets e a revisão de benefícios fiscais.
As propostas econômicas apresentadas pelo candidato à Presidência Renan Santos (Missão) vão além do corte de despesas públicas. Duas medidas defendidas pelo presidenciável, o fim das casas de apostas e a revisão de benefícios fiscais, poderiam alterar o destino de bilhões de reais na economia brasileira. Nesta segunda-feira (24), após reunião com dirigentes e investidores do Bank of America, Renan voltou a defender a redução de despesas e incentivos tributários como caminho para diminuir impostos e melhorar as contas públicas.
“As bets serão destruídas no meu governo. Não vai ter bet”, afirmou. O candidato também disse que pretende revisar renúncias fiscais concedidas a empresas e citou a Zona Franca de Manaus como exemplo.
Embora façam parte da mesma agenda, as medidas teriam efeitos distintos. A proibição das bets atingiria recursos que hoje saem do orçamento das famílias, mas também reduziria receitas tributárias e comerciais do setor. Já o corte de incentivos poderia elevar a arrecadação, ao mesmo tempo em que afetaria empresas e regiões dependentes desses benefícios.
O DINHEIRO QUE DEIXARIA AS BETS
Uma família que deixa de gastar R$ 200 ou R$ 300 mensais em apostas poderia direcionar parte desse dinheiro para supermercado, serviços, lazer, pagamento de dívidas ou poupança. Na prática, haveria potencial transferência de recursos das plataformas de apostas para outros segmentos da economia.
A proibição, porém, também teria custos. Casas de apostas deixariam de recolher tributos no Brasil, enquanto publicidade, mídia, tecnologia e futebol perderiam receitas relacionadas ao setor. Há ainda o risco de parte dos apostadores migrar para sites clandestinos ou sediados no exterior. Nesse cenário, o país poderia perder arrecadação das empresas legalizadas sem conseguir redirecionar integralmente o dinheiro das apostas para outras atividades.
CORTE DE BENEFÍCIOS PRODUZ EFEITO DIFERENTE
A revisão das renúncias fiscais atingiria diretamente empresas e setores beneficiados por regimes tributários especiais. Renan argumenta que a redução desses benefícios poderia permitir impostos menores e melhorar as contas públicas. Caso empresas beneficiadas passassem a recolher mais tributos, a receita adicional poderia ser destinada à redução do déficit, da dívida ou de outros impostos.
O resultado, porém, dependeria dos incentivos eliminados. Retirar benefícios associados diretamente a decisões de produção pode elevar custos, reduzir investimentos ou levar empresas a reconsiderar onde mantêm suas operações.
ZONA FRANCA MOSTRA TAMANHO DO DESAFIO
Renan utilizou a Honda como exemplo ao defender a revisão das renúncias fiscais. Dados oficiais do Ministério da Fazenda mostram que a Moto Honda da Amazônia apareceu como a empresa com maior volume de desonerações na base analisada pelo governo em 2024, com aproximadamente R$ 8,7 bilhões. Ao mesmo tempo, a companhia anunciou investimento de R$ 1,6 bilhão entre 2026 e 2029 em sua fábrica de motocicletas em Manaus, incluindo expansão da capacidade produtiva. O valor registrado em desonerações em 2024 equivale a mais de cinco vezes o investimento anunciado para o período entre 2026 e 2029. As cifras envolvem períodos e grandezas diferentes e não significam que benefício fiscal e investimento tenham equivalência direta, mas mostram a dimensão dos recursos envolvidos. Uma eventual revisão, portanto, precisaria considerar não apenas quanto o governo poderia recuperar em arrecadação, mas também possíveis efeitos sobre produção, empregos e novos investimentos.
ZONA FRANCA TEM PROTEÇÃO ATÉ 2073
Existe ainda uma barreira jurídica. Os incentivos da Zona Franca de Manaus não funcionam como uma renúncia tributária comum que possa simplesmente ser eliminada integralmente por decisão unilateral do presidente. O regime possui proteção constitucional até 2073, e suas vantagens foram preservadas na arquitetura da reforma tributária. Uma mudança profunda no modelo dependeria, portanto, de discussão política, legislativa e constitucional mais ampla.
A CONTA QUE O PROGRAMA AINDA PRECISA APRESENTA
É justamente a combinação das duas propostas que revela a dimensão econômica da agenda defendida por Renan.
No caso das bets, a discussão envolve quanto do dinheiro atualmente destinado às apostas retornaria efetivamente para consumo, poupança ou pagamento de dívidas, e quanto permaneceria no jogo por meio de plataformas clandestinas. Também seria necessário descontar a arrecadação tributária e as receitas comerciais que desapareceriam com a proibição.
Nos benefícios fiscais, a questão é diferente: quanto o governo realmente conseguiria transformar em arrecadação adicional sem provocar perda equivalente de produção, investimentos e empregos nos setores atingidos.
A proposta, portanto, não significa simplesmente retirar bilhões de reais da economia.
No primeiro caso, recursos hoje destinados às apostas poderiam retornar ao orçamento das famílias e a outros setores, mas o Estado também perderia receitas provenientes do mercado legalizado.
No segundo, recursos hoje mantidos nas empresas por meio de benefícios tributários poderiam retornar aos cofres públicos, mas uma parcela da atividade econômica sustentada por esses incentivos também poderia ser afetada.
Por isso, mais importante do que saber quanto Renan pretende cortar será conhecer quanto espera efetivamente recuperar, quais benefícios pretende eliminar, como pretende substituir a arrecadação das bets e qual será o destino do dinheiro obtido com essas mudanças.
São essas respostas que permitirão calcular se a redistribuição bilionária proposta pelo candidato produziria ganho fiscal e econômico ou apenas transferiria custos de um ponto da economia brasileira para outro.




